RICARDO NEVES/época
Belo Horizonte, década de 1960. Na minha primeira infância, a cidade era ainda meio roça. Galinha era frequentemente criação doméstica que ciscava no quintal. Na casa da vó Silvina, quando o prato do dia era galinha, entrava em cena com protagonismo a tia Lelê, com seus dotes culinários e sua expertise em executar fria e de forma ritual as pobres aves. Nossa tia solteirona, apesar de ser a mais querida dos sobrinhos, me legou um terrível trauma de infância. Explico.
Tia Lelê realizava seu ritual de sangrar, matar e depenar as pobres galinhas rodeada por uma assistência apavorada de sobrinhos. A parte mais macabra desse ritual doméstico, não resta dúvida, era quando tia Lelê cortava fora o pescoço da ave e, eventualmente, o corpo da galinha lhe escapulia das mãos e iniciava um macabro voejar até cessarem os últimos estertores. Momento no qual nós, crianças, discutimos excitados se a galinha sem cabeça ainda estava ou não viva. O Brasil destes tempos de agonia me trouxe recentemente à memória o meu trauma da galinha sem cabeça da tia Lelê.
O crescimento econômico e o desenvolvimento do nosso país ao longo de sua história, vira e mexe, são associados ao voo da galinha. Baixo, errático e sem sustentação.
Apesar de ser um país continental, com enorme população, com gigantesca riqueza natural e potencial, o Brasil nunca conseguiu voos de águia, como lograram fazer nações que avançaram muito em seu desenvolvimento em poucos anos, como é o caso de certos países da Europa, principalmente a Alemanha, o Japão no pós-Segunda Guerra, como os Tigres Asiáticos nos anos 1970, ou como a China a partir dos anos 1990.
Desafortunadamente, o Brasil veio comprovando ao longo de todo o século XX a piada de que “é e sempre será o país do futuro”.
Mas estamos descobrindo que as coisas podem sempre piorar. Vivemos desde o início do segundo (des)governo Dilma a pior depressão econômica de nossa história e vivenciando algo similar ao macabro voejar da galinha sem cabeça.
Pior do que isso. Independentemente de como acaba a história do Dilma-vai-de-vez-ou-volta, não haverá alívio. Ainda vamos ter de armar nossas vidas e as de nossas empresas para suportar um período prolongado de voo-de-galinha-sem-cabeça.
A Operação Lava Jato meio que desempenha o papel da tia Lelê. Mas ela deve ir em frente. A Lava Jato é o fio da navalha que degolará a mentalidade política que não conseguiu avançar em direção ao século XXI.
A elite dirigente, incluídos aí quase todos profissionais da política, inclusive aqueles que traíram nossas expectativas, de quem esperávamos muito mais, agoniza e estertora. E não adianta esperar gestos de grandeza e de renúncia dessa gente. Elas e eles não largam o osso.
Mas tudo passa. O Brasil vai ressurgir melhor. Será gradual: a economia e nossas vidas vão ter de vivenciar ainda por algum tempo esse pesadelo, mas uma nova mentalidade vai se desenvolver.
Por agora, a realidade é essa aí: a galinha já está tecnicamente morta, mas seu corpo separado da cabeça ainda não percebeu. Tal e qual a plateia de sobrinhos vendo tia Lelê matar galinha, estamos todos muito assustados.
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